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terça-feira, 6 de maio de 2008

a importância do seXo dos ronaldos

Não tivesse a humanidade mais problemas por resolver, Portugal e Brasil mais assuntos para discutir, se a vida estivesse para brincadeiras, quem ia aguentar a dissecação sobre a sexualidade dos dois jovens craques Ronaldo Fenómeno e o Cristiano, em plena idade para a coisa? No meio de outros tantos assuntos da pauta diária o tema já cansa, quanto mais se não houvessem tantos. Ou serão justamente as chatices da vida real que fazem com que necessitemos de discutir tão exaustivamente o sexo dos ronaldos, quanto mais detestamos isso? Vivamos então o impasse, relaxemos, gozemos e reflitamos, que isto é mais sério do que parece.

Não daria para proibir a mídia de se fartar com o comportamento "privado" das figuras públicas, que toda a gente logo iria para a rua em passeata, protestar contra a censura. E em última instância não daria pra tolher os consumidores de mais um ítem das suas extremas necessidades: o sexo dos ronaldos. Quem fabrica e vende a droga em forma de informação é culpado, mas quem consome é que patrocina. Eu particularmente não compro, mas leio "a fumaça" dos outros, pela experiência de entender o fenómeno - o jogo erótico entre a mídia e o público, bem explicado.

Maldição ou benção, O Brasil tem um Ronaldo, Portugal tem outro. Ambos por acaso são tudo de bom, "o melhor do mundo" para muita gente, no futebol e não apenas. Bons filhos, bons amigos e beneméritos. Um deles podia ser qualquer coisa que quisesse, pelo sucesso que já alcançou, o outro poderia se chamar apenas Cristiano que seria igualmente bom, mas não chegava. Quis o destino que ambos fossem "ronaldos", que se habituassem a ouvir apupos femininos e masculinos e a terem as suas vidas devassadas, assim como a vida de todos que tem a ver com eles. Não podem ser vistos com rigorosamente ninguém que não seja das relações habituais e de trabalho, que logo se transformam em assunto. Fofocas dão dinheiro a quem as faz, podem fazer aumentar o faturamento da "vítima", como podem causar prejuízos à mesma. Mas ao consumidor, dão prazer. E se forem verdadeiras, mais ainda, pois mesmo o consumidor de drogas não se deixa enganar por muito tempo com droga falsificada.

Quando o sexo dos ronaldos ultrapassa quatro paredes e invadem as páginas dos jornais e revistas, e viram assunto nas publicações mais sérias e éticas de todo o mundo, eles perdem dinheiro, pontos na fama de heróis, mas depois se levantam moralmente diante de nós e readquirem o nosso respeito. Porque ídolos nós construímos para olharmos um tempo para eles e depois deitá-los abaixo. Se resistem a nossa fúria, ganham vida e vêm habitar no meio de nós, passam a ser como nós: perfeitos. Há quem não se levante, quem não sobreviva ao estatuto de ídolo. Mas a mídia, no meio deste jogo, é apenas o que é: tudo, menos mentora.

Descuidados ou tramados, os ronaldos se dão mal quando saem da linha. O "à vontade", adquirido durante a passagem pelos grandes clubes europeus e grandes cidades com culturas mais abertas às diversidades comportamentais, podem ser o factor surpresa quando exercitado em casa. No Brasil, como em Portugal - e isto aqui cada vez mais parece um pedacinho de - o sexo e as outras relações fora dos padrões, excitam os ouvidos que todas as boas quatro paredes têm. E não adianta que se diga que escândalos e escorregadelas acontecem nas melhores famílias. Continuamos emperrados, a discutir o sexo dos ronaldos.

Já não se faz ídolos como antigamente? Ou a hipocrisia que permeou e ajudou a contruir a aura de Pelé nem chegou para o Maradona? O que é que está em falta no mercado? Ídolos de verdade ou ídolos de mentira? É possível existir idolos sem mentiras em volta ou sem verdades ocultas? O que anda em excesso por aí? Mentiras ou verdades a mais? Vejam o caso do Jardel, brasileiro e ex-ídolo de Portugal. Não importa as voltas que ele dê, os factos que produza, como ídolo já não convence, embora ainda possa vir a jogar em bons clubes de segunda, pois ele foi bom jogador. Foi, não é mais. Como ídolo já não se safa, mas como ser humano pode bem recuperar-se. O sexo do Jardel é outro e tanto a mídia como o público sabe disso. E a mídia entrou no novo milênio tirando a roupa a todos, cansada da velha lenda de que "os jornais mentem", revelando verdades em excesso que se atropelam e se embaralham, revelando que os ídolos são de barro, ou melhor, de carne e osso como nós. Dão certo e de repente podem já não dar. O sexo do Jardel é outro e ele terá que pôr muitos "pensos" à biografia e ter coragem para a reescrever.

Agora a "droga" dos ronaldos, que é também outra, rende escândalo, projecta pessoas, movimenta o tráfego de influências, abala a moral e os bons costumes, causa prejuízos, para já, não fazem mal à saúde. Não é certamente por excesso de sexo que o Fenómeno engorda, ou por excesso de namoradas que o Cristiano faz tantos golos na mídia. Ainda por cima, o sexo dos ronaldos daria um bom e divertido mote para uma campanha de prevenção às DST (doenças sexualmente transmissíveis). Imaginem um anúncio em que as personagens fazem sexo diversificado, surpreendentemente escandaloso, e ainda assim o máximo que lhes acontece em termos de saúde é uma lesão no joelho! Com camisinha, claro. Aliás, alguma marca de preservativos já pensou em batizar um produto com o nome de Camisinha 9? Atenção que se alguém copiar a idéia, vou cobrar direitos de autora.

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A nova imagem de Portugal no mundo e a campanha do governo

O Governo de Portugal deu início esta semana a uma campanha promocional para renovar a imagem de Portugal no exterior, exactamente no dia da assinatura do Tratado Reformador da Europa – que entrará para a história com a alcunha de Tratado de Lisboa – a ser ratificado por 27 chefes de Estado e de Governo da União Europeia. A imagem de Portugal, vista de fora, deverá supostamente estar associada às energias renováveis como símbolo de modernidade, por causa da liderança portuguesa no sector da energia eólica, mas também aos ícones humanos internacionais, os chamados “bons portugueses”, gente de expressão, nas artes e no desporto. O projecto é conduzido pelo Turismo de Portugal e pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). A nova imagem para a promoção externa de Portugal, pretende tornar o país mais atractivo e competitivo no mercado global. Os principais actores da campanha serão a fadista Mariza e o ex-treinador do Futebol Clube do Porto e do clube inglês Chelsea, José Mourinho. O jogador de futebol Cristiano Ronaldo e a artista plástica Joana Vasconcelos também terão a imagem associada a nova campanha, que custará ao país três milhões de euros. O responsável pelas imagens da campanha será o fotógrafo inglês Nick Knight. A campanha incluirá, entre outros suportes, grandes cartazes, será visível em diversos países, como a Índia, a China, o Brasil e a Rússia. A nova campanha publicitária de Portugal no exterior, desenvolvido pela BBDO, foi lançada em simultâneo em Lisboa e no Porto, na semana passada. Na capital, foi apresentada pelo ministro da Economia e da Inovação e no Porto pelo secretário de Estado do Turismo, Bernardo Trindade. A nova imagem irá reflectir o projecto de Pedro Bidarra e da BBDO, que consistia em posicionar Portugal como a Europe's West Cost. O vice-presidente da BBDO pretendia que a comunicação desse posicionamento afastaria Portugal da imagem de país do sul da Europa e teria como base o turismo, as boas marcas portuguesas, os bons portugueses e que tudo fosse lançado durante um evento de grande dimensão. Pedro Bidarra chegou a defender que deveria haver mudança na bandeira nacional.


Notícia dada, tratado assinado e campanha no ar, o comentário do blogue:


Independentemente de os portugueses escolhidos como rosto da campanha serem bons, pois são, pouco tem a campanha de inovadora. Para começar, se a Mariza e o José Mourinho já são eles mesmos a campanha há bastante tempo, então para que “a campanha”? Portugal ainda é o país do fado, mas aqui dentro sabemos que o fado se renova e resiste, tem ar mais jovem e sorridente, mas o país já é bem mais do que fado e futebol, na música e no desporto. E nas ciências e na literatura? A Mariza consegue ser tão ou mais internacional que foi Amália Rodrigues, mas vistos de fora, a Mariza é a nova Amália e o Mourinho e o Cristiano Ronaldo são o futebol e revelam que o Eusébio gerou alguns bons “filhos”. As outras protagonistas foram bem escolhidas, mas esperemos que a campanha não se fique por aí em rostos, vindo a contrabalançar com imagem de gente talentosa, que também produz, rostos menos mediáticos que se destacam dentro da sua área de interesse, aqui e noutros países, gente que solidifica, aqui e lá fora, no seu dia a dia, a verdadeira imagem de Portugal. Que os publicitários que criaram a campanha se espelhem em alguns motes das campanhas da Caixa Geral de Depósitos e do Millenium BCP, que mesclam rostos anónimos com outros de destaque, na sua faceta cidadã, de gente que economiza, compra casa a crédito, etc. Que tal mostrasse o português cidadão, produtivo, criativo, inteligente, cientista, estudante (como por exemplo a rapariga do Minho que vai protagonizar o Fantasma da Ópera em Londres). Pois há os portugueses que sem saírem (?) do país sobressaem-se internacionalmente, só em algumas áreas, mas há os portugueses que, por precisarem sair do país para formarem-se, desafiam o mundo e vencem, levando na bagagem a imagem do país. É preciso que estes últimos apareçam lá fora, e de preferência a dizer bem de Portugal. Pois os portugueses que vivem emigrados e que emigram hoje, já não levam a paixão pelo país dos tempos de Amália, mas dizem mal do país, onde vão, via de regra. A maioria volta à terra temporariamente, mas as divisas que transferem diminuem na medida da paixão e das dificuldades que encontram nos outros países, mesmo nos menos exigentes com os portugueses, como o Brasil. Posso indicar um sem número de fóruns e sites de portugueses na internet, que se ocupam dia e noite, de dizer mal de Portugal. A “campanha”, que tem como objectivo a imagem de Portugal vista de fora, deveria incluir esta preocupação. Os bons portugueses são só os portugueses bons de mídia? Os portugueses mais conhecidos lá fora precisam de campanha para terem a imagem associada a do país? Sim ou não? Portugal é só isso? Cristiano Ronaldo? Hão de perguntar os indianos. Se até as crianças indianas, como as holandesas, já associam há muito a imagem de Cristiano Ronaldo a Portugal! E se fossem mostrados rostos de imigrantes - com formação feita, como quer o presidente do partido de oposição - a contribuírem com a produção nacional e a mostrarem Portugal como um país de imigrantes, aberto ao mundo, numa via de mão dupla com os portugueses que se expressam nas mais diversas línguas. Uma campanha com rostos variados comunicando em português - mesmo com legenda - revelaria um país novo e diversificado, e uma imagem de facto nova - e uma boa imagem - e não apenas uma nova roupagem do velho. Este tipo de abordagem não só serviria a auto estima interna, como também mostraria Portugal como país requisitado e atractivo.


Ana Lúcia Araújo
cidadã portuguesa nascida no Brasil

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domingo, 7 de outubro de 2007

A Coisa, a Fotografia e a Imagem da Coisa - I

A imagem de uma pessoa, de um grupo ou de uma coisa não se constrói de um dia para o outro, comece a ser trabalhada do zero ou continuada sobre um projecto já começado. Um verbo bem apropriado é mesmo o construir, utilizando aquilo que se pode reunir de melhor sobre o que ou sobre quem se vai trabalhar. É bastante frequente alguém comparar uma imagem de marca, com tudo o que este conceito inclui, a um edifício de concreto, armado sobre uma estrutura sólida e segura, ou reforçada, de modo a ser capaz de sustentar paredes rijas que aguentem ao mau tempo e aos ventos, que resistam ao esforço periódico de manutenção. Com uma fachada que chama a atenção pelo seu objectivo, pelas suas peculiaridades, mas também pela harmonia com o conjunto. Dizendo fachada não como um disfarce, uma parede falsa, mas como um realce do conteúdo. Crescer dói e mudar inclui sofrer choques e abalos.

Conteúdo que se esconde não rende imagens. Modéstia, sobriedade e discrição são qualidades elegantes, mas há que serem dosadas nesse trabalho, para não serem confundidas com hipocrisia. Palavras que dão nome e que rotulam. Muita coisa vale mais para ilustrar esta analogia com o verbo construir, como a preocupação com a economia em material – por exemplo com a qualidade da canalização e sistema eléctrico de um edifício. Com a imagem das pessoas também é assim, a economia em material pode prejudicar a construção, manutenção e durabilidade. Uma imagem construída com pouca informação, ou com dados mal escolhidos, não favorece a que vá sendo, aos poucos, mantida, restaurada e até reestruturada nos seus alicerces. Vamos chamar de agora em diante de "coisa" – e sem aspas – as pessoas, empresas, instituições, objectos e o conjunto da clientela desta ideia. Apenas para simplificar raciocínios. Há a coisa, a imagem sobre a coisa (a fotografia) e a imagem da coisa. Esta última interage com as outras duas estruturas, intertransformando-as. Sempre que preciso falar com alguém sobre esse assunto, cito como exemplo a história da imagem construída do falecido político brasileiro de direita António Carlos Magalhães, baptizado espontaneamente pelos media brasileiros de Toninho Malvadeza. Sem se preocupar prioritariamente em esconder o seu passado, até porque isto não seria mesmo possível, foi mudando a sua imagem, realçando pontos flexíveis do seu carácter, se expondo gradualmente à transformação e colocando os feitos à frente do homem. Morreu como liberal, reconhecido por elementos de expressão da esquerda que anteriormente o criticaram, e por todo o povo da Bahia, sua região e celeiro político. O que pode nos levar até a pensar que, se alguns políticos – que nem o marketing político os salvaria – imitassem o ACM nos seus últimos anos de vida, o Brasil seria outro em pouco tempo. O marketing é uma ferramenta para ajudar na construção de uma imagem, mas o material vem da própria coisa e da história da coisa, fotografada e exposta, em transformação. Por isso até agora nenhum marketeiro vislumbrou candidatar-se à reabilitar a imagem do Pinochet e do Bin Laden. Ou já? Para além de terem uma fotografia repetitiva, nunca estiveram interessados em mudar a imagem que têm. Tudo o que sai na foto se revela e tende a mudar, penso eu, ao contrário do que reza a convenção, de que a coisa se mexe e a fotografia é estática. Em marketing isto não é bem assim.

Uma fotografia bem focada (nos jornais ou na TV, por exemplo) de uma coisa má ou uma coisa feia (real), pode levar à construção uma boa imagem da coisa. Como? Se aos olhos dos outros parecemos belos, belos nos tornamos. Essa transformação gradual vai obrigando a coisa a ser mais parecida com o que parece, se o que parece é bem melhor. Vai mudando a coisa a um ponto de ela necessitar parecer, aparentar, mostrar que está mudando, dinamicamente para melhor, para não ficar para trás. Ao contrário do que afirma o senso comum, trazer à tona as coisas más não as valoriza nas más influências que podem conter, mas pode significar influenciá-las e transformá-las. Os maus pontos da imagem, bem escolhidos e revelados fazem com que os bons pontos sejam editados em alto contraste, o que é positivo para a imagem. As pessoas mudam, as coisas mudam, mas as fotografias e os filmes ficam, comprometem, exigem coerência, melhoria, reforçam a construção da imagem dinâmica, no seu sentido mais amplo e contínuo. Uma imagem que não revela uma coisa apta a ser sempre melhorada é como um edifício belo e abandonado. E uma imagem bem construída, assim como um edifício, para se manter bela tem que ser assistida constantemente, e não parecer uma coisa pronta e acabada.

É esta a lógica que faz com que um assessor de Comunicação e Imagem não discrimine um cliente com uma história particularmente incorrecta e difícil de ser contada. Na perspectiva de que o cliente sempre poderá melhorar um pouco se o assessor for competente e tiver sensibilidade e inspiração. Assim como um advogado de defesa ou um médico (muitas vezes com urgência), como acontece em tantas outras profissões de cariz humano, o assessor de Comunicação e Imagem também é um “salva-vidas”. A partir do momento em que você resolver construir ou reforçar a sua imagem, deve estar consciente de que entrou em um processo de transformação interior, de melhoramento como coisa, e que isto virá à tona. Para isso deve lançar mão do que há de melhor em si para oferecer e informar. Sem esquecer do que aparentemente teria de ser esquecido na sua história, quando no espelho se olha. Muitas vezes, os pontos negativos de uma história, quando assumidos positivamente podem revelar uma experiência a não ser repetida por quem a viveu ou por outros a quem a revelação pode ajudar.

Por que é que ultimamente está na moda entre pessoas famosas ou não, irem à televisão e aos jornais e assumirem publicamente os seus defeitos crónicos de carácter, suas doenças-tabu e seus vícios? Simplesmente porque a negatividade dá audiência e porque a plateia é selvagem? Não! É porque a verdade torna a coisa, na fotografia, mais humana ou mais autêntica (seja ela gente ou mesmo coisa). Até o imaculado e claustro cantor Roberto Carlos, em subtil transformação desde a jovem-guarda rebelde, assume que sofre de transtorno bi-polar. Isto seria impensável há uns anos atrás. Mas assumido agora, isto também é bom para a imagem dele, sólida mas em constante evolução. Porque construir ou manter um edifício, ou retocar uma imagem, não é apenas fazer uma pintura nova, ou uma cirurgia plástica ou, para os mais radicais, derrubar paredes e fazê-las de novo, começar “nova vida” como dizem os amadores. É valorizar velhas e sólidas experiências – inclusive as de mudança – e reeditá-las, somando-as às novas. Informações verdadeiras, bem escolhidas, compiladas e divulgadas, que reforçam a imagem construída, tornando-a mais bonita, durável e resistente às adversidades. Quem contrata um especialista em imagem certamente não quer mudar apenas a imagem, e mesmo que só queira isso, não é só isso o que acontecerá.

Ana Lúcia Araújo
marqueteira em construção.

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