O Tráfico, a Família Real e a Genitália no Carnaval do Rio
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O que de facto vale a pena ser comentado nos resultados do desfile principal do Carnaval 2008, no sambódromo mais conhecido do mundo, é sobre o que o mesmo reflete da nova mentalidade do carioca. Politicamente correcto, e em busca de um modêlo equilibrado de comportamento que se contraponha à má imagem causada pela violência urbana, o carioca critica tudo, repudia extremos, pune a família real portuguesa nos seus 200 anos de chegada ao Brasil - em nítida falta de informação sobre a importância do tema - rebaixa a escola São Clemente para o grupo de acesso - alguém lembra de como se chama o palácio onde está instalada a residência do Cônsul de Portugal no Rio de Janeiro?. Pois. Ainda relacionado com o tema, não exactamente sobre, outra escola de samba patrocinada pela Prefeitura do Rio, a Mocidade Independente, de Padre Miguel, levou chumbo em enredo com o seu Quinto Império. E ninguém se lembrou que exactamente no dia 6 de Fevereiro o Padre Antonio Vieira faria 400 Anos. Também, se a Mangueira festejou 100 anos do frevo e esqueceu os 100 anos de Cartola, o que pensar? A famíla real portuguesa e a história do Brasil tiveram melhor sorte com as escolas não patrocinadas, o que já representa uma crítica do poder cultural dos jurados em relação ao poder político. A história é pra ser contada, mas à nossa maneira, sem o bedelho da oficialidade. A tijucana Salgueiro levou o vice-campeonato com a subtil abordagem de um tema histórico, no meio da carioquice charmosa trazida pela mesma família real portuguesa e que o Rio de Janeiro continua tendo. E o Dom João e as Marias, da Imperatriz? Gente, história, mesmo, só à carioca, com muito humor em volta.
No outro extremo da rejeitada tradição, o carioca - ou o júri politicamente correcto - rejeita e pune, com retirada de pontos, a já prejudicada São Clemente, por causa da genitália nua, que não é nenhuma novidade, logo também uma tradição, mas que na Marquês de Sapucaí não foi desta vez anunciada aos representantes da nova hipocrisia, traídos pelo tapa-sexo da Viviane, que caiu. A preocupação exarcebada do carioca com o que é politicamente correcto coloca num mesmo patamar moral a história e o sexo, promove visualmente na multidão o Capitão Nascimento (personagem do filme Tropa de Elite) e dá um 10º. Lugar à Mangueira, numa clara punição pela aliança entre a escola e o tráfico de drogas, tão bem denunciada e documentada pela reportagem do Globo Online. Este 10º. Lugar é mais importante que o bi-campeonato da Beija-Flor. Refletiu a mentalidade do carioca - e dos brasileiros - que vibraram com o desfile impecável que fez a verde-e-rosa, mas não protestaram contra a desastrosa nota que a escola recebeu, como fizeram com o 11º. em 1994, entendendo o de hoje como um resultado mais do que moral. E ainda elegeram a Portela como a favorita dos internautas, num destaque, acima de todos os quesitos, da torcida que tem a escola, que rivaliza com a da Mangueira. É, gente, bumbuns-paticumbuns-prugurunduns nem no juri, nem na arquibancada, agora só mesmo pela internet, e bem comportados, que nos diga a Império Serrano de hoje. Festa é festa, mas não esqueçamos de que alguém é responsável pelos mortos contados na quarta-feira, especialmente os executados a tiro durante o carnaval. Os temas polêmicos e irreverentes não são amigos da paz na nova mentalidade do carioca, e não merecem destaque nem na oficialidade, nem nas torcidas. O júri e a opinião pública puniram o mal e os remédios.
História, genitália e tráfico de drogas estão do mesmo lado? Não, mas foram igualmente punidos em favor de temas pouco polêmicos, reverentes e pacíficos de outras grandes escolas que deram a sorte de não quebrar os carros e dar clarões no desfile. Politicamente correcto, no resultado oficial do carnaval no Rio de Janeiro, talvez só mesmo a intenção de sê-lo e o desejo de viver em paz o charme de uma cidade que continua linda e que continua sendo, aliás, interesses comuns ao júri e ás torcidas. Não era preciso punir junto com o tráfico, a passagem secreta da Mangueira e a Família Real portuguesa, a genitália nua, que de tão discutida, já era altura de ter sido pacificada. Viva a Beija-Flor na sua perfeição com as suas lendas do Amapá, mas também Viva a São Clemente, com o seu enredo histórico e a genitália da Viviane!
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