segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Comentando as eleições para o Parlamento Europeu em Portugal
O acompanhamento e a avaliação em torno das eleições de ontem, em Portugal, foi entusiasmante demais. Muito entusiasmo para pouco voto, embora eu pense que o show das eleições é bom para incentivar o aumento do quórum no futuro. Eu também entrei na festa do twitter para comentar os resultados e interagir com o noticiário. Alguns pontos importantes me chamaram a atenção: já na campanha, a figura do "anticandidato" do PS, a postura frontal de Francisco Louçã, que cada vez mais se demarca como a voz da verdade nacional, e por último o exagero festivo do discurso de vitória do PSD. A direita ganhou na Europa, a esquerda acumulou em Portugal, onde os candidatos "venceram" os seus partidos, no caso das siglas majoritárias. A abstenção continua a ganhar eleições em Portugal e os partidos não têm uma política que reverta esse quadro. A falta de interesse dos eleitores vem mesmo da falta da campanha pelo voto, para além da falta de proximidade que as propostas parecem ter da clientela, pois quando o assunto toca diretamente a sociedade, o voto acontece, como aconteceu no plebiscito do aborto. Os perdedores de ontem que reflitam e os "vencedores" que façam menos festa. Recomendo sobriedade.
@SIConline Interpretando os resultados: abstenções, brancos e nulos dariam para eleger quantos eurodeputados? Rangel, menos festa faria bem.about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os resultados: Nuno Melo tem cara e discurso de político de 60/70 anos... que imagem terrível!about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os resultados: PS fez discurso sóbrio, Paulo Rangel fez o vendedor da "banha da cobra"....about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os resultados: a taxa de abstenção é motivo de facto para o silêncio e o vazio no hotel Altis... reflitam.about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os resultados: se eu fosse o marketeiro do PS centrava o discurso da reação aos resultados na abstenção...about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os resultados:Comemorar vitória nestas eleições é desespero histórico, diante das abstenções. É vergonhoso até.about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Comemorar vitória nestas eleições em Portugal é desespero histórico, diante de tamanha taxa de abstenção...about 14 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os primeiros resultados: com mais de 60% de abstenções não haveria Europa para ninguém, se eu mandasse.about 15 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os primeiros resultados: 60% d abstenções deveriam anular pleito, nada de deputados até q houvesse quórum descente.about 15 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os primeiros resultados: ganhos efectivos das esquerdas.about 15 hours ago from web in reply to SIConline
@SIConline Interpretando os primeiros resultados: eleitorado PSD absteve-se menos, PS repousou nas sondagens anteriores, faltou campanha...about 16 hours ago from web in reply to SIConline
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quinta-feira, 12 de março de 2009
Moralização: uma bandeira para o próximo presidente do Brasil
Enquanto acompanhava pela internet a invasão do edifício do ministério da agricultura em Brasília, por 400 mulheres militantes do movimento Via Campesina - episódio fartamente divulgado pela grande imprensa - ocorreu-me comentar aqui o que tenho observado sobre questões que penso serem as que mais sensibilizam o eleitorado brasileiro, no momento em que o país se prepara para substituir o presidente Lula. Do meio rural às metrópoles, a violência se apresenta como o problema mais abrangente, capaz de unificar o discurso entre as diferentes classes sociais, quer pela direita, quer pela esquerda. É a característica negativa que mais chama a atenção sobre o país, visto do exterior. A violência polariza ricos e pobres como vítimas, com exceção para algumas divergências quanto aos métodos de combate. Portanto, as causas que mais irão influenciar as tendências e marcar as diferenças no debate eleitoral e mesmo determinar a manutenção ou não da presidência da república com o PT (Partido dos Trabalhadores), a partir do próximo pleito, no meu ver serão, no meio rural a definição da Reforma Agrária, e no meio urbano, o combate à corrupção.
A moralização do Brasil, como bandeira política, aparece ainda isolada em atitudes mais afoitas, como a da entrevista do Senador Jarbas Vasconcelos, aliás com impacto de fazer inveja a qualquer campanha eleitoral da esquerda, mas fraquejando para o desinteresse pelas coisas da política. Começam a surgir entretanto pelo país, movimentos de reflexão e vigilância sobre a atuação dos poderes, inclusive sobre o comportamento da justiça. Merecem ser observados, entre outros no mesmo contexto, o crescimento das proposições do grupo Via Campesina e a expansão de um movimento surgido em Brasília, de sigla MOJUS (Movimento de Olho na Justiça) que se dirige para norte e cria delegação em Belém, Pará, animados ainda pelos efeitos do Fórum Social Mundial 2009 e pela adesão de instituições políticas regionais. Iniciativas desse tipo soam como alertas e podem ser um filtro ao ingresso de corruptos nos partidos e nas instituições governamentais e legislativas a partir de agora. Mas é preciso arrepiar carreira com a corrupção entranhada no cotidiano das pessoas e dos seus representantes.
Os números da popularidade de Lula e a estabilidade no quadro da candidatura petista à sucessão, demonstram que, nem os partidos de tendência neoliberal – que receiam lançar mão dos seus melhores nomes para não queimar cartucho numa eleição perigosa - nem os partidos que se organizaram à esquerda do PT, atinaram ainda com uma fórmula capaz de abalar a tendência que dá vitória para a pré-candidata Dilma, apoiada pelo presidente. De ambos os lados, as oposições cometem erros crassos e anti-voto, como o de criticar a bolsa-família, um benefício assistencialista instrumentalizado para assegurar votos ao PT, mas distribuído entre eleitores que se formaram ouvindo os pais falarem do Brasil como um país onde pessoas morriam à fome e viviam os nervos da hiperinflação. Complicado é se criticar um benefício que existe em quase todos os países desenvolvidos do mundo. Em Portugal, por exemplo, que não é exatamente um país de primeiro mundo, fala-se muito em se rever e aperfeiçoar o Rendimento Social de Inserção, mas ninguém ousa tocar na idéia de o extinguir. O RSI é um rendimento que salva da fome milhares de famílias, e dá-lhes esperança de saírem da dependência do estado, através de programas sociais de aproveitamento produtivo dos beneficiários. É portanto, perda de tempo de quem pensa em derrotar Dilma nas próximas eleições, andar a bater em bolsa-família e outras do género. As oposições, unidas ou divididas como de costume, deveriam centrar o discurso na moralização do país e na prisão em massa para os corruptos.
As manifestações do início da semana no Brasil, um pouco por todo o país mostraram novamente a relação entre o retardamento da Reforma Agrária e a corrupção. Pois se a Reforma Agrária ainda hoje anda às voltas com questões regulamentares e com necessidades de revisão de modelo, como bem apanha o Via Campesina, isto se dá por causa do jogo de interesses que tomou conta do meio político. Nas grandes cidades, sedes das maiores instituições, a corrupção traduz-se em seguidos episódios, em casos escandalosos que surgem nas mais diversas áreas do poder, inclusive do poder judiciário. Os escândalos e a impunidade nos crimes contra o património e o dinheiro público, têm provocado o desgaste das agremiações partidárias e a rejeição pelo poder institucional por parte dos eleitores e até dos políticos de bem. Os combatentes à corrupção ainda não afinaram o tom. O discurso e a responsabilidade pela moralização do país ainda não unificam as oposições, e nem ao PT, este também envolvido em escândalos. Algumas tendências políticas preferem manter-se afastadas da via institucional, no fomento de políticas perfeitas, mas sem urgência de tê-las representadas nas mais altas instâncias. Parte da esquerda sindical brasileira, às vésperas de uma nova eleição presidencial, ainda prefere combater por fora os males do poder, afastar-se dos partidos ou juntar-se aos partidos no discurso para a derrota certa. Não assimilaram ainda que a sociedade civil não governamental, organizada ou desorganizada, tem que ser o “espírito” crítico, a luz da consciência institucional, mas no formato partidário tem que ir ao poder. Partido não é associação, sindicato, ONG. Os partidos são feitos para disputar o poder, ir para o poder. Sem essa perspectiva, a curto prazo, as políticas justas se transformam em bandeiras para um futuro descolado, que não se emenda com a substituição da realidade atual criticada. Evidentemente que os partidos com menor colégio e menos chance de eleger um presidente da república optam pelo crescimento qualitativo, baseados nas propostas das bases, mas erram quando priorizam no seu discurso pré-eleitoral a crítica ao que é menos mal na prática governamental de Lula. O combate à corrupção exige uma vigilância que não deixa espaço para questões secundárias. A agir assim, o discurso da moralização acabará vindo de dentro, provavelmente de áreas isentas do próprio PT, para ajudar o intocável presidente Lula a eleger a sua candidata. Ninguém me encomendou “a missa” ou precisa acreditar nestas observações, mas não custa nada não apagar.
Marcadores: brasil, corrupção, dilma, eleições, esquerda, Lula, moralização, política, pt, reforma agrária, tucanos
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
A crise e o medo de mudar
O Presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, fez hoje uma advertência nada romântica ao Governo, sobre as consequências da crise económica para o futuro do país. Numa surpreendente mudança de postura presidencial, Cavaco alertou para a necessidade de se definir prioridades no enfrentamento da crise e os comentadores de economia na imprensa "descodificam" o discurso do presidente como uma preocupação com a probabibilidade de não haver dinheiro para investir na retomada do crescimento econômico. A possibilidade de as medidas tomadas este ano não funcionarem como solução não é pensável sequer, e as preocupações já alcançam o próximo ano, que Cavaco Silva, entretanto, acredita que será bem melhor do que este, que mal começou.
O tom usado pelo presidente português parece dar a entender que alguém ainda não acordou para a gravidade da situação, no mesmo dia em que os socialistas reelegem presidente do partido do Governo o Primeiro Ministro José Sócrates, que discursa sobre a crise e fala da Educação como prioridade para a recuperação de Portugal para o futuro. Relança ainda ao país a polêmica questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto opiniões contrárias consideram a questão como uma distração dos problemas prioritários, e ele rebate essas e outras resistências falando sobre o medo de mudar. Mário Soares, o lendário socialista, que também havia se manifestado sobre o casamento gay com alguma rejeição, ainda não comentou o discurso de Sócrates e nem reagiu ao alerta do atual Presidente da República.
O medo de mudar é uma característica comum à maioria dos portugueses, que atinge o meio político, pressionado sempre entre a militância esclarecida da classe média, que vê o país a andar sempre atrás dos parâmetros europeus, e a maioria dos eleitores, que vota e determina a sobrevivência da classe política, tem consciência de que vive abaixo dos padrões europeus, mas reage mal às mudanças, por medo de que tudo venha a piorar. A pior crise pode ser esta, a da falta de autoconfiança, que pode ter outras crises como razão de fundo.
Sobre crise e mudanças, fala-se a mais em economês e politiquês, e a impressão que dá, quando os portugueses conversam sobre a realidade do país, é de que estão pouco esclarecidos, apesar da saturação informativa, sobre a crise e sobre o papel de cada um diante da mesma. A noção que a maioria do eleitorado tem da crise se manifesta ainda primariamente, apenas ao nível do desemprego sentido, dos preços, do fechamento das empresas e das demissões em massa, que assistem pela televisão todos os dias, sem entenderem o porquê de não haver um culpado, ou com preocupação mais focada em entender as culpas, do que em participar da recuperação do país, com algo mais do que a paciência para esperar e alguma reserva para "queimar". A crise, na visão da maioria das pessoas comuns com quem converso, ainda é um bocado como o mau tempo, que passará, mal passe o tempo dela. A relação entre o eleitor e o "meio político" é sentimental, um misto de desconfiança nos políticos e excesso de confiança no Estado.
O presidente português e o atual Primeiro Ministro vêm de partidos diferentes, mas nos discursos de hoje, contemplam necessidades urgentes e que só são incompatíveis do ponto de vista eleitoreiro. O Governo precisa perceber a gravidade da crise e definir prioridades. Mas precisa informar e envolver a população nas soluções, falar claramente de participação e de sacrifício, levar o esclarecimento sobre a crise, em bom português, para as escolas, por exemplo. Mesmo com o risco de uma reação eleitoral contrária. Afinal, no que mais as coisas poderão piorar? Para identificar ou partlhar culpas, para que o fenômeno em si seja entendido, no contexto histórico e político, e para que cada um possa assumir a sua parcela de responsabilidade pelos atrasos do país. É preciso que pelo menos se tente que o medo de mudar seja isolado, para que o Primeiro Ministro deixe de parecer o representante de uma maioria silenciosa. E para que o alerta de um Presidente da República não cale como um discurso de choque, que perde o impacto no dia seguinte. Cavaco Silva está mudando e todos podem mudar.
"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".
Karl Marx, Das Kapital, 1867
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