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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Tucano ao forno, passando do ponto

Aguardei a esperada entrevista de Aécio Neves à revista Veja e a aclamação a vice de Serra pela plateia do partido – que bateu e voltou - para escrever algo sobre ele ou que o incluísse, num artigo a mais sobre as futuras eleições presidenciais brasileiras. Portanto vamos. Aécio tem 50 anos, governou por duas vezes o Estado de Minas Gerais e pode ter sido o governador mais bem sucedido da história do Brasil. É um dos líderes tucanos, alcunha que cabe aos membros do PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. É candidato ao Senado brasileiro por Minas e recusou-se a ser candidato a Vice-Presidente, ou recusou-se a ser apenas o vice. Incrível como Aécio Neves ainda não é o candidato da oposição à Lula e ao PT nas próximas eleições.
Este artigo é tão despretensioso quanto o que escrevi sobre a vitória que tinha como certa, de Fernando Henrique, mal havia lançado ele a candidatura ao primeiro mandato. Não havia internet para todos como agora, nem jornais online e muito menos redes sociais - o artigo deve estar perdido num documento word em algum backup antigo, foi escrito de Portugal com base em notícias e conversas e não lembro onde foi publicado. Na altura o Brasil se afirmava como laboratório de vanguarda do marketing político e a classe média intelectual, com vocação à esquerda, fez valer a sua capacidade de propaganda, trazida da experiência contra a ditadura e sofisticada pelos gurus da publicidade. Os brasileiros haviam deposto Collor de Melo, mas ainda não entregariam o coração ao PT. Os excluídos ainda não tinham experimentado os benefícios sociais com que contam hoje e que já há alguns anos entendem como sendo direitos adquiridos e irreversíveis. Isto para dizer que nas próximas eleições candidatos e marqueteiros precisarão atualizar alguns conceitos.
O carisma político de Lula e a eficiência administrativa de Aécio Neves em Minas Gerais dão o tom das próximas eleições presidenciais brasileiras. Nem Lula nem Aécio são candidatos, pois Lula não é Chavez e o PSDB parece não querer arriscar Aécio a uma possível derrota. Seria isso? Pensando bem, perder com José Serra para a candidata de Lula será menos comprometedor que perder com Aécio. Serra já perdeu uma vez. Duas grandes eras políticas brasileiras poderão revezar-se numa disputa luxuosa entre candidaturas de excelente qualidade, boas para o povo brasileiro, mesmo as novas e menos sonantes candidaturas. Eu não queria estar na pele dos marqueteiros dos dois principais candidatos, pois nem toda a arte da guerra da propaganda chegará, na orientação das sutilezas que definirão essas eleições por alguns parcos votos, e no segundo turno.
As principais candidaturas à próxima presidência do Brasil estão lançadas e apuram-se os discursos. A sensibilidade refinada de Aécio Neves, como verifico aqui na entrevista à revista Veja, faz antever o caminho que percorrerá o PSDB do candidato José Serra. O partido e o discurso são ainda os mesmos e deverão vir unificados. Aécio consegue visualizar Lula isoladamente do PT, exatamente do ponto de vista do eleitor brasileiro corrente, e assim se norteará o discurso de Serra. Já Lula, entendendo ter sido eleito por uma enorme frente ou por uma avalanche popular, e não apenas por um partido, escolheu Dilma, que deverá ser entendida mais como a candidata dele do que como a candidata do PT e deverá avançar para a reivindicação carismática de ser a primeira mulher a ser eleita Presidente do Brasil. Duas quase unanimidades nacionais dão o tom da campanha, mas não concorrem. Lula não pode, Aécio poderia. Mas como não é candidato, Dilma tem em seu favor o tempo e a situação.
Meritocracia, messianismo... palavras caras usadas por Aécio Neves sobre Lula e o PT, que poderiam elevar o entendimento teórico-político dos brasileiros no próximo debate eleitoral se fosse ele o candidato. Mas terão o efeito desejado, se usadas por Serra, diante das medidas sociais implementadas por Lula, mesmo não sendo ele candidato? Medidas sociais do governo Lula são elogiadas, nenhum candidato atreve-se a criticá-las. Caberá ao PSDB emoldurá-las com o Plano Real e com as condições históricas anteriormente criadas por Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e contra as quais o PT bem resistiu. O bom discurso do mérito administrativo exemplificado com Aécio, e a alternância do poder como essência da democracia, confrontar-se-ão com medidas ainda quentes que tiraram da miséria material milhões de eleitores e com lembranças constantes sobre as privatizações precipitadas de FHC, que tinham por objetivo exatamente queimar etapas e ganhar a velocidade de desenvolvimento de que Aécio fala na Veja. Ele precisa ter cuidado com esse discurso.
Lula é um projeto partidário que ganhou carisma, um homem de partido que teve de se garantir, para salvar a si mesmo e ao próprio PT no poder, por ser o PT de fato uma frente de tendências bem vincadas e reunidas em torno dele. Aécio também é um homem de partido, embora herdeiro político de Tancredo Neves. Criou um carisma regional e quer-se um destino. Maneiras e caminhos diferentemente percorridos para chegar ao poder. Como o irão exercer os seus apoiados, experimentemos se quisermos saber. Aécio Neves não é candidato, mas foi duas vezes governador de Minas Gerais, um Estado historicamente decisivo, politicamente participativo e celeiro de políticos carismáticos e bons gestores. Dilma Roussef, candidata, nenhum cargo eletivo, nenhuma experiência administrativa, mas soldado de um projeto político partidário federal de esquerda que produziu Lula e que o Brasil não quer perder. Ela é candidata e mulher, e com algum esforço e tempo poderá ser transformada em um Lula de saias.
Lula indicou Dilma por ser a candidata da sua confiança, a que dará ao povo garantia de que ele estará presente nas suas vidas. O símbolo de Dilma deveria ser o sinal de + representando Lula+Dilma, sobreposicionado à tradicional estrela. A presença de Lula é uma garantia aos eleitores beneficiados pelas políticas sociais historicamente reclamadas e corajosamente implantadas, como o Bolsa Família. E o PSDB, não quis arriscar agora Aécio, o seu trunfo histórico, como candidato à Presidência, ou a escolha de Serra é resultado de lutas internas estúpidas? Serra tem mais projeção nacional que Aécio, mas como perdedor das eleições anteriores! Aécio produziria melhores efeitos futuros ao PSDB, mesmo que perdesse para Dilma. Talvez já esteja preparado para ser presidente e esteja mesmo a passar do ponto. Não aceitou ser apenas Vice e emprestar sem garantias o seu carisma a Serra, que irá bater-se contra políticas sociais ainda muito vivas na rotina do povo, num jogo contra Lula e Dilma. O PSDB pode ter preferido um Serra já testado, correndo quem sabe o risco de ganhar, mas isso não funcionaria sem uma boa retaguarda eleitoral de Aécio, não como Vice, mas como Senador, com ele sabiamente decidiu. Os marcadores em Minas não poderão cair durante o próximo mandato.
Serra então entraria para fazer a reforma eleitoral que traria Aécio ao poder no pleito a seguir? Que engenharias estarão sendo feitas nesse sentido? Porque tomara, para o PSDB, que o adiamento de uma candidatura de Aécio Neves seja de caso pensado, e não um trambolhão histórico.
Convém acompanharmos ativamente o jogo entre o carisma do projeto político vigente e a propagada eficiência contra problemas crônicos que o Governo Lula não conseguiu resolver - mas que Minas Gerais conseguiu. Um jogo que o PSDB pode já ter perdido quando não atinou que haveria de ter coragem para arriscar Aécio como candidato à presidência, mesmo que fosse para perder esta eleição, sem medo de queimar cartuchos e apostando na elevação do debate político. Aliás, o Brasil já é um luxo em termos de candidaturas ao poder Federal. Não há mais candidatos pró-ditadura, direitistas, militaristas, retrógrados, etc. Pode-se dizer que o Brasil, salvo mapeados focos resistentes no meio econômico e facilmente combatidos pelas organizações sociais, jogou no ostracismo os direitistas ideológicos e colocou a direita assumida na "clandestinidade". Repito: as próximas presidenciais brasileiras serão um verdadeiro luxo em termos ideológicos.
O PSDB errou em guardar na manga um candidato saído com 92% de aprovação no governo de Minas, um herdeiro político de Tancredo Neves que não se acomodou na herança e trabalhou como nenhum político brasileiro o fez, em seu Estado e no seu tempo. Errou em optar por um Serra perdedor e sem o carisma de Lula. A memória política recente do eleitor brasileiro sobreviverá por mais uma geração? O tempo passa e cada vez menos eleitores ligarão de imediato Aécio Neves a Tancredo Neves, apesar do sobrenome. O símbolo começa a desbotar-se e o PSDB só tem a perder com isso. Mesmo não tendo Aécio repousado no "berço esplêndido" da herança tancredista e tendo implementado a meritocracia em Minas Gerais, tão reclamada num projeto federal, isso valerá menos em uma próxima do que agora. E se ele tiver que futuramente vir a confrontar-se com Lula, numa volta triunfal deste, após uma reforma na lei eleitoral que impossibilite a reeleição de Dilma ou de Serra, como aliás o próprio Aécio e muitos no PSDB defendem? Era necessário ao PSDB tamanho risco histórico? Esta é uma “viagem” minha só, mas o tempo rápido passa e quem não morre, retorna. O Lula poderá voltar, para se enfrentar com Aécio pessoalmente mais na frente. E com um Aécio que ainda não seria presidente e ainda não teria implantado a meritocracia no Brasil, contra os messianismos, etc.

Enfim, alguém tem dúvidas de que se fosse Aécio Neves o candidato do PSDB a Dilma Roussef estaria perdida, mesmo debaixo do foco de Lula? Eu não tenho porque sei que o eleitor brasileiro, embora esteja mais politizado e já tenha experimentado dois projetos partidários de governo, com o PT e com o PSDB, e embora comece a mostrar uma mudança de comportamento, ainda desta vez votaria num candidato com carisma histórico. O próprio PT não sobreviveria sem o carisma de Lula e uma sociedade é o espelho do poder que têm.

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1 Comentários:

  • Voce tem toda razão . Em qualquer aspecto, Aécio seria o vencedor na carreira presidencial.

    Por Anonymous Anônimo, às 29 de abril de 2010 08:25  

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